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O poder de compra do cafeicultor

O poder de compra do produtor mede a capacidade que ele tem de adquirir insumos com a receita oriunda da venda do café, conhecida também como relação de troca entre insumos. Esta relação pode ser obtida pela razão entre o preço recebido pelo cafeicultor e o preço pago pelos insumos. Assim, uma redução na relação de troca entre o café e determinado insumo indicaria que o cafeicultor se encontra relativamente em situação melhor, pois o preço recebido pelo café cresceu acima do preço pago pelo insumo. Neste contexto, o que se observou desde agosto de 2019 foi uma aceleração dos preços do café, o que pode ter indicado uma melhora na relação de troca em comparação a importantes insumos, como os fertilizantes, e um alívio sobre a margem dos produtores.

 

De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Cepea, o preço da saca de 60 kg de café arábica, em termos reais, ou seja, descontando a inflação do período, passou de R$412,69 em maio de 2019 para R$574,16 em maio de 2020, um aumento de 39,13% no período. Apesar disso, a recuperação dos preços do café ocorreu após meses de mínimos históricos desde 2017. Com isso o preço médio da saca de café em 2020 ainda esteve abaixo dos preços médios mensais observados nos últimos 10 anos (2009 a 2019) entre janeiro a março, estando um pouco acima nos meses de abril (3,60%) e maio (2,07%). Fatores como a queda de cerca de 20,0% da produção de café brasileira em 2019, principalmente devido a redução expressiva na produção de Minas Gerais, maior produtor do país, aliado à queda na produção de café em Honduras, sexto maior produtor do mundo, assim como o aumento da demanda global pelo produto, contribuíram para a recuperação do preço do café a partir de agosto de 2019.

 

Por outro lado, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento – Conab, o que foi observado pelo cafeicultor, no geral, foi uma queda do preço líquido dos principais fertilizantes desde setembro de 2019, apesar da desvalorização cambial no Brasil. Entre abril de 2019 e abril de 2020, os preços reais da uréia-45, do superfosfato e do cloreto de potássio caíram cerca de -7,29%, -10,26% e -5,73% respectivamente. Apesar disso, esta queda nos preços não foi suficiente para que o preço real do superfosfato entre janeiro e abril de 2020 se mantivesse abaixo das médias históricas dos últimos 10 anos, mas foi suficiente para que os preços da uréia-45 e do cloreto de potássio permanecessem abaixo da média histórica em todos os meses deste ano. Ressalta-se que, apesar de manter relação direta com o dólar, os preços dos fertilizantes também têm relação direta com o preço do petróleo, que teve uma forte redução devido à pandemia do Coronavírus. Além disso, a queda na demanda por fertilizantes em países de grande consumo, como Estados Unidos e Índia, ajudou a diminuir a pressão sobre os preços dos fertilizantes.

 

Dito isso, como se comportou o poder de compra do cafeicultor nesse período? A Figura a seguir mostra a relação de troca entre a saca de 60 kg de café e as toneladas de uréia-45, superfosfato e cloreto de potássio, ou seja, mostra quantas sacas de café foram necessárias para comprar uma tonelada desses insumos no período de 2009 a abril de 2020, última informação disponível.

 

Figura 1 – Relação de troca entre a saca de 60kg de café e os principais fertilizantes (sacas/tonelada).

Fonte: Cepea (2020). *Média de preços entre janeiro/2020 e abril/2020.

Elaboração: Labor Rural.

 

Em destaque, tem-se a relação de troca de 2020, representado pela média de janeiro a abril, e de abril de 2020, ambas na cor preta, as piores relações de troca para o cafeicultor no período na cor vermelha e as melhores relações de troca para o cafeicultor em azul. Em 2009, o cafeicultor obteve as piores relações de troca para o cloreto de potássio e o superfosfato no período, enquanto que em 2013, obteve a pior relação de troca para a uréia-45. Em contrapartida, o ano de 2011 foi o de relação de troca mais favorável no período, principalmente pelos altos valores obtidos pelo café naquele ano, R$828,67/saca em média.

 

Portanto, é possível perceber que o poder de compra do cafeicultor em relação a estes insumos melhorou em comparação a 2019, se mantendo distante das máximas observadas no período. Em relação à uréia-45, foram necessárias 3,96 sacas de café em média para se adquirir uma tonelada do produto em 2019 e, já no mês de abril de 2020, foram necessárias cerca de 2,74 sacas de café, uma queda de -30,94%. Já em relação ao superfosfato, o poder de compra do cafeicultor passou de 2,77 sacas por tonelada em 2019 para 2,04 sacas por tonelada em abril de 2020, uma melhora na relação de troca de 26,63% para o cafeicultor. Por fim, em relação ao cloreto de potássio, foram necessárias 4,35 sacas de café para se adquirir uma tonelada do produto em 2019 em comparação à 3,08 sacas em abril de 2020, uma queda de -29,21% na relação de troca no período. Apesar disso, no mês de abril de 2020, o poder de compra do cafeicultor em relação à uréia-45, ao superfosfato e ao cloreto de potássio ainda esteve 15,09%, 42,11% e 14,96% respectivamente distante das menores relações de troca observadas no período.

 

Devido a melhora dos preços do café este ano e a estabilidade dos preços dos fertilizantes, o que vem se desenhando para o ano de 2020 é um cenário melhor do que o observado em 2019 em termos de poder de compra em relação aos fertilizantes. Além disso, a desvalorização cambial expressiva da moeda brasileira tornou os produtos nacionais mais competitivos internacionalmente, o que tende a aumentar a demanda estrangeira pelo café brasileiro, pressionando os preços internos e ajudando a melhorar a relação de troca do cafeicultor com seus insumos. Apesar disso, o cafeicultor deve ficar atento ao cenário de piora da renda da população devido à pandemia do Coronavírus, que pode diminuir a demanda interna, pressionando o preço do café para baixo. Aliado a isso, espera-se que a produção de café cresça 25,8% este ano, atingindo 62 milhões de sacas, aumentando a oferta do produto no mercado interno. Desse modo, o cafeicultor precisa se planejar e observar à relação de troca com estes insumos para que possa garantir uma margem superior à obtida em 2019.

 

 

Guilherme Travassos